segunda-feira, 20 de julho de 2009

Doença e Trabalho

Doenças e trabalho

Uma das transformações mais extraordinárias da modernidade é a valorização do trabalho e de sua crescente divisão e especialização, a ponto de torná-lo o centro da vida social. Assim, o trabalho passa a ser representado como uma atividade produtiva, emancipadora do homem, capaz de libertá-lo da miséria e da pobreza.
Contudo, se o trabalho torna-se fonte de riqueza e liberdade, constitui, ainda, um espaço de exploração e de dominação de uma minoria sobre uma maioria, uma vez que o trabalho é a atividade em torno da qual ocorre a radical distinção entre as classes trabalhadoras, privadas dos meios de produção, e a dos capitalistas, aqueles que possuem e concentram os meios de produção.
Nesse contexto, o trabalho é indispensável porque produz riqueza.
Mas nem todos os trabalhos, para produzi-la, obrigam a sofrer: alguns são agradáveis e edificantes; outros cansativos e degradantes. Quase todos os trabalhos agradáveis são monopolizados pelas elites, os outros são delegados às máquinas ou aos animais ou são impostos aos trabalhadores de baixa renda, às classes médias compostas de empregados, de funcionários públicos e profissionais liberais.
Com o surgimento da indústria, o trabalho – que durante séculos foi executado mais ou menos do mesmo modo, com os mesmos custos de uma brutal fadiga e os mesmos resultados – é organizado em bases realmente novas, até atingir altos níveis de produtividade, e a organização do trabalho se transforma numa ciência autônoma, que prega a crescente divisão do trabalho, a especialização e a automatização.
De qualquer forma, é inegável que a crescente divisão do trabalho demonstra os benefícios da especialização e da busca de maior competência técnica, bem como o mérito e o potencial transformador da liberdade individual e da iniciativa privada. Assim, junto à crescente divisão social do trabalho e da especialização burocrática de tarefas e, portanto, da supervalorização do trabalho e do mundo privado ocorre a formação de cadeias cada vez mais complexas de dependência entre os indivíduos, no universo do trabalho; cadeias que se espalham para o resto da sociedade.
O esquema de racionalização do trabalho foi eficaz na conexão entre trabalho, moral, virtude e saúde. Nesse entendimento, não é apenas o fazer que se focaliza, mas a criação de um modo de subjetivação do ato de fazer, ou seja, a composição de uma subjetividade para o trabalho que, utilizando dispositivos disciplinares, diluídos na sociedade, dissocia o poder do corpo, faz dele, por um lado uma aptidão, uma capacidade que ela procura aumentar e inverte, por outro lado, a energia, a potência que poderia resultar disso, e faz dela uma relação de sujeição estrita.
Se a exploração econômica separa a força e o produto do trabalho, digamos que a coerção disciplinar estabelece no corpo o elo coercitivo entre uma aptidão aumentada e uma dominação acentuada. Desse modo, as organizações cuidam de sua aparência não só para melhorar sua imagem exterior, mas também para dar a seus membros o sentimento de estarem protegidos na plenitude de todos. Os dois elementos centrais para alcançar esses objetivos são a gestão dos recursos humanos e a divisão de responsabilidades. Por estes meios, os dirigentes querem manifestar sua confiança nos empregados. Esses empregados são administrados, tratados – às vezes melhor, às vezes não tão bem – como estoques dos quais se deve garantir a rentabilidade, como mercadoria que deve ser utilizada convenientemente ou da qual se deve ser capaz de se desvencilhar, caso apresente algum problema.
É nesse contexto que a saúde se torna uma questão para o progresso e a evolução social. De um lado, tal idéia pressupõe técnicas coletivas de intervenção para higienizar e moralizar os trabalhadores; e, de outro, estimula reivindicações por melhores condições de trabalho, acesso aos cuidados médicos e indenizações em caso de doença ou acidente de trabalho. Lutas, perdas e vitórias descrevem essa história, em que algumas conquistas são expressivas: jornada de oito horas, férias e adicionais por horas extras de trabalho; leis relacionadas ao acidente de trabalho; leis sobre o trabalho de mulheres e crianças; leis sobre melhorias ergonômicas nos locais de trabalho; medidas de prevenção de acidentes.
Esses ganhos, sempre efetivados pela participação solidária dos trabalhadores, são as expressões coletivas do combate nas relações saúde e trabalho.
Contudo, essa mesma luta torna-se frágil quando a doença do trabalho é instalada, pois o doente passa a ser visto como inútil ou incapaz, além de sofrer a ofensa pela impossibilidade do nexo da doença com o trabalho.
Como trabalhar é uma virtude, não trabalhar, uma vergonha. Todos precisam trabalhar para sustentar a si e aos seus. Estar destituído dessa capacidade,
ainda que involuntariamente, implica sanções e conseqüências. E é tão forte esse sentimento de dever que os que estão adoentados sentem-se culpados, perdem a autoestima e se ressentem com as incriminações veladas e mais ainda com as explícitas.
A doença é perturbadora não só para os adoecidos, mas para os que não estão ou não declaram o adoecimento, pois somente se vende força de trabalho quando se tem a saúde suficiente para executar o trabalho requerido. A relativização da saúde, isto é, ter a saúde suficiente ou mínima para o trabalho, é uma exigência do mercado. A produção não requer, obrigatoriamente, trabalhadores absolutamente saudáveis, mas que o sejam suficientemente para garantir a produtividade esperada. O que importa não é a saúde do trabalhador, mas a saúde necessária à produção.
Se a oferta de força de trabalho com a capacidade técnica exigida for grande, como de hábito, a preferência recairá sobre os que vendem mais barato e têm, aparentemente, mais saúde, forma do capital se precaver contra possíveis ausências ao trabalho.
Quando a doença é reconhecida como um mal, a sociedade autoriza a exclusão dos seus doentes. Sontag afirma que "toda sociedade, ao que parece, precisa identificar uma determinada doença com o próprio mal, uma doença que torne culpadas suas vítimas". A prática da medicina relacionada ao trabalho, ao perceber o corpo dominado pelo mal, descarta-o. E, posteriormente, complementando a lógica do útil/inútil na sociedade, o configura a um perfil doente, também o excluindo do social saudável.
É nesse contexto que os trabalhadores com LER se sentem estigmatizados por sentimentos de culpa e impotência diante das cobranças de um trabalho que exige perfeccionismo, grande eficiência e dedicação ininterrupta. Essas são as características de um sistema de racionalização do trabalho de herança taylorista.
Tais aspectos também podem ser observados quando o atual modelo japonês investe em uma subjetividade perfeccionista, inquieta, disciplinada e atenta. O objetivo de zerodefeitos, visando à qualidade ótima da produção, disciplina os trabalhadores na medida em que lhes impõe concentração mental estafante na tarefa a realizar.
Desse modo, percebe-se que “(...) a primazia do bom e do bonito custaram caro, como escravidão para muitos e desconforto físico para todos. O universo da precisão e a primazia do útil e do prático também estão custando caro, como subordinação para muitos e desconforto mental para todos. As organizações se transformaram em instrumento dessa subordinação e desse desconforto.”Portanto, a questão da doença, acidentes e mortes, em conseqüência do trabalho, não se restringem, exclusivamente, à materialidade do processo, mas também à organização do trabalho, determinada por relações sociais dentro e fora do trabalho. São os conflitos sociais gerados pelo trabalho alienado, repetitivo e estafante, resultante do sistema produtor de mercadorias, que determina hoje as doenças e mortes na sociedade moderna.
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